YÔGACINE - MR. NOBODY

16-11-2016 18:38

 

30/SET/2016

Enquanto não se escolhe, tudo permanece possível.
Citação do filme Mr. Nobody

O registo que fazemos dos filmes que vamos vendo no Yôgacine têm sempre uma abordagem em que se procura fazer a ponte entre o artístico e o intuitivo, que muitas vezes andam de “mãos dadas”. Nesta perspectiva, o interesse e o foco vai para a mensagem que se pretende passar e nos aspectos que são mais caros à Nossa Cultura, não tanto pela interpretação e opinião pessoal que cada um possa fazer se o personagem viveu ou não com a Ana e se tomou ou não a opção mais correcta. Até porque, as diferenças de opinião começam logo na classificação do filme, uns defendem que é de ficção científica, outros dizem que é drama e outros como fantasia.

Nós consideramo-lo genial e envolvente, uma verdadeira Obra de Arte. Acima de tudo, porque a riqueza do tema trabalhado no filme é algo difícil de ser encontrado. Depois, por ser um dos melhores e mais inteligentes filmes que tivemos oportunidade de assistir. Por fim mas não menos importante, porque tem bons actores a fazer uma excelente representação dos personagens, cenários magníficos e banda sonora fantástica.

Aborda a questão da Escolha. É um assunto que nos é familiar, pois o caminho que decidimos percorrer tem em vista a expansão da consciência, como tal, cada vez mais despertos para a reflexão e importância das escolhas que somos obrigados a fazer, segundo a segundo, continuamente, em toda a nossa vida. Sim, é o termo mais correcto, somos obrigados a escolher, mesmo quando a escolha seja não fazer nada. Tomada a decisão, o rumo dos acontecimentos será obrigatoriamente distinta caso tivesse sido tomada outra opção. Neste ponto, entendemos que a citação no cabeçalho pode abrir margem para dúvidas, como se fosse possível não escolher e assim manter todo o leque de opções em aberto. A nossa leitura é que o não escolher é uma escolha, mesmo que seja por incapacidade de tomar uma decisão, mas inevitavelmente traça um rumo, que, só por si, impede que tudo permaneça possível. Confuso? Não! Apenas exige alguma reflexão. E sim, o filme leva-nos a isso.

Fala também de conceitos da ciência sobre várias teorias da física moderna, tornando-o ainda mais interessante. Uma das quais a do efeito borboleta, para quem nunca ouviu esta teoria, diz que o bater de asas de uma borboleta de um lado do globo pode causar um tufão do outro lado. Com arte e mestria, faz a ponte entre aquela teoria e o facto de uma simples folha que se desprende de uma árvore tornar-se a causa do encontro entre um casal, que acaba por gerar uma criança que por acaso é o actor principal. Muito giro, uma folha de árvore caduca na origem da concepção de um novo ser. E assim, com estas e outras cenas ao longo de todo o filme, alerta para a consciência que as pequenas coisas podem ter e como um pequeno acontecimento pode gerar grandes mudanças. Fazemos registo de uma outra, em que a diferença na escolha das palavras que a personagem usa para transmitir a mesma intenção – não entrar na água para nadar - muda toda a sua vida. Enfim, aborda temas sobre física, amor, traição, escolhas e consequências e em como a vida pode ser incrível e cheia de possibilidades. Um verdadeiro livro em branco em que somos a um só tempo autores e personagens a escrever e a ditar o nosso futuro de acordo com as opções que tomamos.

Antes de pôr um ponto final neste resumo, que já vai longo, uma breve análise entre a arte e a intuição bem evidentes ao longo de todo o filme. Nunca se fala explicitamente no termo Yôga, embora da primeira à última cena se identifiquem imensos aspectos que parecem ter sido inspirados nas escrituras mais antigas do hinduísmo.
Logo no início do filme percebemos que o protagonista possui capacidades para além do normal, no entanto, esse “dom” pode dificultar a sua vida. Sabemos ao que é que isso se refere, todas as escrituras de Yôga alertam para a aquisição de siddhi – para-normalidades, que podem ser obtidos à nascença ou como consequência de uma prática firme e disciplinada, e que os mesmos podem constituir obstáculos para a evolução do yôgi. Uma delas, bem evidente no filme, é a memória do passado e a capacidade de “ver” o futuro, demonstrando uma grande habilidade na percepção de factos do quotidiano que o personagem identifica como opções de escolha consciente. Há uma alusão directa à filosofia hindu, em que se refere o ensinamento daquela cultura sobre a relação que o ritmo respiratório tem com a percepção e o nível de consciência. E muitas vezes aparece o personagem a pairar acima do próprio corpo, fazendo alusão ao 4º estado de consciência identificada pelo Yôga como túrya – a consciência testemunha, o nível que está além do estado de vigília, sono ou sonhos.

Enfim, um filme muito interessante e inteligente que recomendamos vivamente!

SwáSthya!

Luís Lázaro, Instrutor de SwáSthya Yôga
Discípulo de João Camacho
Espaço Cultural Natarája