Yôgacine - Harry Potter

01-10-2017 18:25

Na passada sexta-feira entre as habituais pipocas doces e boa disposição, visualizamos no Yôgacine os filmes Harry Potter e os talismãs da Morte parte 1 e 2.
Um filme para crianças sem qualquer relação com Yôga, dirão muitos. Mas logo o nosso querido Mestre João Camacho, faz cair por terra esta ideia e explica a ponte que existe entre estes e a realidade que nós, yôgi, vivenciamos com maior ou menor intensidade no nosso marga. Pois, tal como as personagens desta história, também cada um de nós tem um caminho a percorrer, e muitas vezes o grande desafio é tão só caminhar.
Pela lente do nosso Mestre fomos desfiando a história e os seus simbolismos: 7 anos de Hogwarts, os 7 chakra; as etapas de um caminho iniciático que o jovem feiticeiro e os seus companheiros têm pela frente, com o exílio necessário para a auto análise, para a reflexão, entre desespero e solidão, mas simultaneamente coragem e convicção; a exposição de que todo o ser completo é tanto luz como sombra, através de James Potter de aparente linhagem superior mas de índole por vezes duvidosa e o Prof. Snape cuja personagem sombria, aterradora esconde um ser corajoso, honrado e leal. Um ser puro é aquele que equilibra em si as suas virtudes e os seus defeitos.
Examinamos inclusive o simbolismo que os talismãs encerram e que tem expressão na nossa filosofia. E a história dos 3 irmãos, detentores dos talismãs, remete-nos para ensinamentos yôgis, pois sabemos que o verdadeiro poder vem de dentro, é interno – varinha de sabugueiro; que há uma lei natural para as coisas da vida e a aceitação da mesma liberta-nos do sofrimento – pedra da ressurreição, e que a humildade e ego educado servem de suporte à sabedoria - manto da invisibilidade.
Em Harry, enquanto neófito, constatamos que é caracterizado pela bravura destemida, a nobreza cavaleiresca e a excelsitude no amor tal como o herói das mitologias. Ele possui qualidades (coragem, constância, subtileza, experiência, resistência…) que identificamos, na nossa linguagem, como necessárias para despertar a serpente ígnea, não a Nagini do filme, mas a própria kundaliní que lhe permite atingir a hiperconsciência.
Para que transcenda a sua condição, tem a ajuda de outros heróis. Estes não são necessariamente os guerreiros que enfrentam exércitos e que saem vencedores de todas as lutas vividas. São, antes de mais, aqueles que sobressaem pela determinação e pela entrega a uma causa, esquecendo-se de si próprios em favor da luta por um sonho e por justiça. Como Neville Longbottom e o elfo Bollby. E como Ron, que a dado momento sofre de incerteza e se afasta dos companheiros, duvidando do caminho, tal como os praticantes que não sabendo distinguir escolas e linhagens, acabam por sofrer e contaminar-se com incompatibilidade de egrégoras. Contudo Ron regressa, redimindo-se, sublimando o ciúme e emoções viscosas, manifestando assim aprimoramento de carácter e capacidade de autos-superação.
Analisamos ainda a personagem de Dumbledore, que assume o papel de guru de Harry, encaminhando e orientado, nem sempre revelando o sentido das suas indicações, nem sempre facilitando, garantindo que o caminho fosse trilhado mas criando condições para que o discípulo tivesse sucesso, ainda que a aparente possibilidade de escolha e a vontade residissem sempre no discípulo.
Despertamos igualmente para a dicotomia Harry - Voldmort. Eles são os pares de opostos que se mesclam por fim, e é o adepto quem detém esse conhecimento e o integra, unificando assim os opostos que sempre coexistiram também no seu ser. Já Voldmort não o consegue realizar pois é um ser cada vez mais fragmentado. É nesta fase que o conhecimento se transforma em sabedoria e Harry, tendo entretanto renascido num nível superior de consciência, mais clarividente, mais sábio, o derrota. Tanto havia para dizer sobre estes filmes tal a riqueza do mesmo, para lá daquilo que é puro entretenimento, que é denso.
Visualizar estes filmes com este novo prisma, este novo olhar foi uma experiência totalmente diferente das outras tantas vezes que os havia visto. Em alguns aspectos a semelhança, completamente intencional da autora, é tão evidente que estranho não me ter apercebido dela antes. Mas antes eu não tinha um Mestre e orientador, que me guiasse e me ensinasse. Além de poder desfrutar da companhia dos meus queridos companheiros, no fim de um mês de comemorações do 3 aniversário deste lindo Espaço Cultural Kálí, o Yôgacine têm esta finalidade: o propósito de, através de histórias e imagens tornadas acessíveis ao grande público e capazes de se entranharem pela via da imaginação, deslindar a subtileza das suas mensagens em particular nos aspectos que se relacionam com a nossa cultura, afirmando “ficticiamente” a autenticidade do caminho do auto-conhecimento que procuramos trilhar.
Obrigado querido Mestre e querida Prof Paula por este maravilhoso Yôgacine. SwáSthya
Ana Marisa Rebotim, discípula de João Camacho, Yôgachárya
01/10/2017