Visita à Quinta da Regaleira e a mansão filosofal

31-07-2017 11:48
Visita à Quinta da Regaleira e a mansão filosofal
 
Visitámos este sábado a Quinta da Regaleira, sendo a última actividade do Programa Yôga em Férias, o culminar de um mês fabuloso coroado da melhor forma. Esta visita veio dar continuidade à aprendizagem que serviu de sútra a todo o PYF, na descoberta da simbologia e linguagem iniciática, própria do esoterismo tradicional - argot, a linguagem dos pássaros, linguagem crepuscular.
 
E em Sintra, na mansão filosofal da Quinta da Regaleira, com toda a envolvência estonteante proporcionada pela Serra, enigmática, misteriosa e pelo estilo pitoresco e autêntico da vila de Sintra, encontramos a evidência material, a manifestação concreta dessa linguagem, que apenas alguns entendem. Tal como refere tantas vezes o nosso querido Mestre João Camacho, “não acreditem, vão confirmar” sendo isso que a visita à Quinta da Regaleira proporciona, a prova real da existência de conceitos e códigos que representam a transcendência humana, num processo iniciático para aqueles que se lançam na procura do autoconhecimento, a autoconsciência, e no caso do Yôga, para além dela, para a hiperconsciência. Pois tanto no Yôga como na iniciação, ocorre sempre um processo de transformação do indivíduo, quer simbolicamente quer de modo efectivo e verdadeiro, de morte da forma de vida anterior, de isolamento ou retorno ao útero materno, e por fim de retorno ou renascimento de um novo ser, agora metamorfoseado.
 
A Quinta da Regaleira e o seu Palácio foi mandada construir pelo seu proprietário Dr. Augusto Carvalho Monteiro. Conjuntamente com o arquitecto italiano Luigi Manini criaram um espaço integrado onde incluíram vários mitos e símbolos pelos jardins, nos poços, grutas, labirintos de túneis, nos lagos, na capela, que cumprem a função de levar o iniciado no seu percurso de transmutação.
 
Encontramo-los nas pinturas como a das 3 Graças com a Força, a Sabedoria e a Beleza a lembrar as virtudes necessárias ao percurso; no patamar dos Deuses, 9 no total, 9 o número da perfeição e do iniciado; nas conchas e búzios das esculturas; na presença de galgos e pombas dos assentos nos jardins fazendo a ligação entre o masculino e o feminino, entre os opostos; na exposição constante e em toda a parte de água; nos íbis de longos bicos; no trono solitário defronte para uma fonte de nome Abundância; na bicada fecundante de um cisne (Zeus) na coxa de Leda, que se ergue imaculada numa gruta húmida e escura qual flor de lótus que também surge do lodo; nas gárgulas pétreas da Capela da Santíssima Trindade e do Palácio, num inacabar de representações que apenas pudemos acompanhar através da documentação e explicação pormenorizada que o nosso Mestre foi difundindo, fazendo a ponte entre esta linguagem e a linguagem do Yôga. E tal é necessário que seja apreendido por nós, sadháka, pois como afirma George Feuerstein “o Tantrismo desenvolveu em alto grau uma “linguagem crepuscular”(sandha-bhâsha), uma linguagem simbólica secreta, que pode desorientar bastante os não iniciados. Os iniciados têm de aprender com um mestre competente a compreender o simbolismo da própria tradição, para que não venham a naufragar nos rochedos do literalismo.”
 
Mas não nos fiquemos pelo literalismo, a Quinta da Regaleira é para ser vivenciada, sentida, contemplada, é para se mergulhar nela e em nós mesmos, na plenitude, num universo íntimo que nos desperta a ambivalência entre a atracção e o medo, pois queremos despertar para uma outra dimensão mas sabemos que nesse labirinto iremos enfrentar a escuridão, a dúvida, a inconstância da mente, o nosso inferno pessoal. Talvez por isso tenha sentido a necessidade de vocalizar mantra quando estava no fundo do poço, para fazer vibrar as rochas e as trevas, “comungando”, renovando, alterando a energia do local. Para alguns de nós estar no fundo do poço foi reconfortante, como quando se está no ventre materno, para outros poderá ter sido menos agradável, pois sente-se o frio e humidade e percebemos que estamos sós, até um pouco indefesos mas uma vez lá em baixo o ímpeto é olhar para cima, para aquele olho de luz que nos observa e nos convida a subir. Ai percebemos que ainda temos um caminho de retorno para fazer se queremos chegar lá acima. A escadaria espiralada num movimento de involução e evolução cósmico, com os seus nove lances de escadas lembram-nos da perfeição e da necessidade de renascer, para que não percamos a força e sintamos vontade de desistir pelo caminho. Não nos entregarmos a esta experiencia era ficar pela metade, incompleto. Ora Yôga é união, integração, não devemos ficar apenas pela metade, precisamos de todas estas vivências para alcançarmos o nosso objectivo de auto superação, de expansão da consciência, trazendo o que se aprende para a vida prática.
 
Que bela tarde, que paisagens maravilhosas e encantadas, que companhia fabulosa, que egrégora fantástica. Muitas mais palavras podem ser acrescentadas a este texto e ainda assim ficaria tanto por dizer. Foi o culminar de um ciclo fabuloso, com as queijadas e travesseiros de Sintra a galardoar a tarde.
 
Graças a si querido Mestre João Camacho, sempre disponível a ensinar aqueles que o querem escutar e a si querida Professora Anabela Duarte da Silva, pelo entusiamo e dedicação com que organiza estes PFY no sentido de nos proporcionar mais e mais Yôga da melhor qualidade. Podemos repetir? Ou mais é gula?
 
Fico feliz por partilhar o meu caminho convosco.
 
SwáSthya!
 
Ana Marisa Rebotim, graduada e discípula do Mestre João Camacho