Texto para o círculo de leitura de 22 de Junho de 2018

11-07-2018 17:57

Texto para o círculo de leitura de 22 de Junho de 2018

Os meus amados gregos, depois os romanos, iniciaram um processo de racionalização do mundo, que veio a culminar no monoteísmo, afastando os seres humanos de uma realidade supra-sensível, em prol de um torpor resultante uma promessa de salvação eterna.
A ponto de, por volta do século das Luzes, pelo menos no Ocidente, a iniciação resultar tão só em rituais vazios de significado interno, vazios de transformação e alteração da visão do mundo daquele que supostamente era iniciado. A iniciação passou a ser, apenas, um rito de passagem, em que o candidato, após cumprir os pré-requisitos, passou a ser aceite na estrutura corporativa da irmandade aonde se candidatava. É a Maçonaria e os Rosacrucianos que mais contribuem para uma adulteração do processo iniciático, através de formas teatrais, com muito simbolismo, mas com pouca capacidade transformadora. Aquilo que na Antiguidade se chamava de Mistérios (o conhecimento que está para lá da aparência, o que permitia ao ser humano contactar com uma realidade que o ia alterar indelevelmente), foi arredado da maior parte das estruturas iniciáticas. A tal ponto de, no último quartel do séc. XX, algumas correntes new age proporem a auto-iniciação.
O que significava a iniciação nos tempos antigos?
É necessário afirmar que a iniciação, não se +esgota num acto. É um processo contínuo de transformação, de mutação.
Sabemos hoje, que a iniciação, nos tempos antigos, implicava sempre um descer. Aos abismos, como vos digo, às profundezas da mente. Mas também aos reinos da morte. Onde a escuridão, por associação à Senhora, à Deusa, à Lua, reinava soberana. Onde, após esse mergulho, muitas vezes enlouquecedor e doloroso, o iniciado voltava, pelo efeito redentor da luz. Luz do fogo, luz da kundaliní. Nessa descida, o iniciado deve viver a aniquilação dos seus ancestrais, mas também a própria. Assim acontece com os cereais, nas sociedades agrárias, mas também com o metal dos ferreiros, esses grandes demiurgos, que como nós, trabalham e forjam com o fogo. Que, como nós, malham, transformam, moldam o metal, assim como nós fazemos ao corpo, à respiração, às emoções, à mente, para no fim, obterem um metal de especial pureza e qualidade, para no fim obtermos um ser ontologicamente superior, um ser com acesso ao canal intuitivo.
Este processo não é teórico, nem somente simbólico. É um real processo de transmutação, de disciplina continuada, de interferência do guru na vida, na mente, na maneira de ser e de estar do discípulo. O guru, deve, como o ferreiro, malhar, dobrar, submeter ao fogo. E só assim o discípulo se transmutará na lâmina afiada de que a Upanishad fala. Há, tem de haver, uma dimensão vivencial na experiência da iniciação. De outro modo não é real, de outro modo é falsa. E tem de a haver, mesmo nos aspectos menos bons, ou menos agradáveis, ao discípulo. Não basta o aspecto litúrgico, as palavras e as teorias do guru, que se ouvem e se consideram muito bonitas, tal como os católicos fazem em relação às homilias do padre. Há que mergulhar no lado esotérico e mágico da transformação pelas mãos do mestre. Transformação que muitas vezes tem início no ashram, continuidade nas florestas, nas montanhas, nos rios, na percepção das forças e das energias que aí, esquecidas de quase todos, ainda se manifestam. Transformação que ocorre pela acção directa do mestre. Pela interacção do discípulo com este, pelas práticas orientadas por este, pelas práticas propostas por este. Muitas vezes práticas profundas, de grande interferência com a maneira de ser do discípulo, mas que têm como fito modificá-lo, levá-lo mais longe no marga do Yôga Shakta/Sámkhya. Práticas que não devem ter um cariz redutor, interacção que não cessa só porque a prática terminou. Pois a interferência, a acção transformadora, deve ter continuidade em todos os aspectos da vida do discípulo. A acção iniciática tinha, na antiguidade, e tem hoje, quando é autêntica e não apenas litúrgica, a finalidade de preservar a clarividência intuicional. O processo iniciático é, ou deve ser, um mergulho nas entranhas, nas profundezas da mente e da terra e nas suas energias. Porque somos shaktianos, mergulhamos primeiro nas trevas, reino da deusa, reino da Senhora, reino da mãe. Só depois ascendemos à luz. Também por isso preferimos a penumbra da floresta, também por isso fazemos as nossas práticas, no ashram, com as cortinas cerradas e as luzes apagadas. Como se adentrassemos a caverna, ou retornássemos ao útero materno. E o que é o tão decantado hiranyagharbha, ou a caverna, a não ser úteros? O primeiro cósmico, o segundo da terra?
A iniciação autêntica leva à tomada de consciência das energias que se manifestam através do corpo e catapultam-nas, num processo ascendente, para a consciência alargada. O iniciado procura conhecer no corpo a trama dos tecidos, mas também a textura da pedra. Por isso vos tenho sugerido que façam a V. coreografia em cima das pedras. O processo iniciatório autêntico passa pelos Mistérios (vide, por todos, Mircea Eliade), palavra que significa “fechar a boca”, que significa “manter silêncio”. Ora, estamos, com este conceito tão perto do grande ensinamento “os que falam não sabem, os que sabem não falam”. São mistérios, na terminologia grega, mas reparem como estamos perto de gupta vidya (conhecimento secreto), ou de amnaya (misterioso – provindo esta palavra de mistério). Reparem também, como nos remete para outros aspectos. O iniciado, o que vivenciou a experiência transformadora, não tem como expressar por palavras, do discurso racional-intelectivo a sua experiência. Todavia é um testemunho correcto, como Patañjali o indica. E o testemunho correcto é a melhor forma de conhecimento erróneo. É correcto para o que teve acesso directo à experiência, é testemunho, ou seja, a vivência de outro, para aquele a quem a experiência é descrita. Também por isso o mistério – manter o silêncio.
Um outro aspecto também a ter em linha de conta, quando se fala em conhecimento misterioso (amnaya), ou seja, conhecimento sobre o qual se deve manter silêncio, é a moral vigente. O iniciado deve confrontar-se com a moral e com os valores morais que lhe foram incutidos pela sociedade em que está integrado, e que aceitou como bons. Também aí deve pô-los em causa, e num processo de auto-superação, tantas vezes doloroso, penoso, pois entra em linha de conta a noção de pecado e o sentimento de culpa. Nesse processo o iniciado deve por de parte essa moral, transmutando-se também no que lhe foi inculcado como sendo absoluto, natural. Pois de outro modo não utilizará uma das mais poderosas ferramentas, uma das mais poderosas energias que o ser humano tem à sua disposição – a libido, a sexualidade sagrada. Mistério, manter o silêncio, pois se formos discretos, quase tudo nos será permitido. Se formos exuberantes, seremos apedrejados.
Os que um dia são tocados, não mais voltarão a ser os mesmos, ainda que abandonem o caminho, ainda que se afastem do Yôga, ainda que abjurem o mestre. Pois num processo de transmutação propõe-se ao iniciado que morra, que saiba morrer e regressar, regenerado, transformado, da morte. Por isso também é o nascido duas vezes. Não falamos em termos simbólicos. O iniciado transforma-se na sua mundivisão, onde até a sacrossanta moral instituída se modifica no interior deste. Mas não paramos nós o corpo (ásana), como se este estivesse morto? Não cessam os pulmões de respirar (kúmbhaka - shúnyaka)? E não paramos a mente, os seus turbilhões, o pensamento (dhyána)? E para o fazermos não retiramos os sentidos do mundo (prátyahára)? Não é este estado como o de um morto?
Nota: este texto terá continuidade. Um dia.

Lisboa
João Camacho