Texto para a reunião do Círculo de Leitura do mês de Julho/2018

11-07-2018 00:00

Texto para a reunião do Círculo de Leitura do mês de Julho/2018:
Transmutação do sádhaka – A Obra maior
"Sempre achei muita graça ao estilo dos herméticos; porque neste enigma explicam de tal modo (…), que declarando tudo, não revelam nada; e ao mesmo tempo deixam revelado o mistério, e debaixo de uma pedra escondido o segredo.""
(ENNOEA, Parte segunda, Diálogo segundo, Capítulo Único, #3-Da preparação da pedra filosofal-, in José Manuel Anes Um outro olhar.Face esotérica da cultura portuguesa, p.157)

No nosso caminho deveremos tomar em consideração os ensinamentos que habitualmente são tidos como da alquimia, acerca das várias fases do solve ao coagula. Verificaremos que, se quisermos continuar, este é o caminho que trilharemos. Analisemo-lo a partir do ôshadhi Yôga. Atente-se no ensinamento de Iyengar :
"Ôshadhi planta medicina, erva, (…) incenso, elixir."
Na tradição ocidental o trabalho com as plantas chama-se espagíria, que se diz ser a alquimia vegetal. Vejamos como José Anes a define:
"A espagíria tem a ver com as preparações - dos elixires, das tinturas – a partir das plantas e de alguns minerais, mas tendo em conta os princípios alquímicos: o enxofre, o mercúrio, o sal, etc., Ou seja, numa planta, o seu mercúrio é o álcool que se obtém por putrefacção da planta, por exemplo as uvas. (…) qualquer planta, na sua “putrefacção” dá um álcool. E, depois, o óleo essencial da planta é o seu enxofre. Por último, o sal, é aquilo que se obtém por calcinação das folhas do caule, de tudo isso. Calcinação é o sal."
Ora, para que a evolução ocorra o sistema deve estar aberto, doutro modo o discípulo não conseguirá aceitar nada do que o Mestre lhe queira ensinar. É a fase do solve, ou nigredo. Corresponde esta fase à dissolução, à integração da sombra, do aspecto obscuro. A integração das emoções, das percepções, dos pensamentos que até aí rejeitámos por os considerarmos indesejáveis. Corresponde à dissolução em nós daquilo que reprimimos como se não fosse nosso. O solve ou o nigredo é assim chamado por se associar ao chumbo e a Saturno, o planeta. Associa-se porque é pesado, difícil e que causa sofrimento. Pois a ele se associam as provações a que um Mestre rigoroso submete os seus discípulos. Nesta fase há que reconhecer o nosso lado sombrio – raiva, inveja, ciúme, ódio, cobiça, competição. Por vezes o resultado é melancolia, a introversão, a desilusão connosco próprios e o sentir o mundo como um local triste. Mas é preciso que o solve se cumpra e o mergulho deve ser profundo e o encontro com as emoções pesadas, as fraquezas e os limites deve ser cumprido. É necessário dissolver a sombra para que possamos prosseguir. Pois um sistema fechado não evoluirá mais. Mas é necessário que este mergulho tenha consistência que será dada pelas provações e pela prática do ashtánga sádhana. Pois um sistema demasiado frágil, poderá não ultrapassar a desagregação inicial. Corresponde à morte alquímica. Dissolução (solve), na qual se separa o mercúrio, o enxofre e o sal. Corresponde à destruição de uma estrutura, o vosso universo comportamental (caus ou trevas) que fica em crise e é posto em causa. Através do solve, também destruímos as nossas concepções tradicionais sobre o mundo e as pessoas. Abandonamos as práticas, os padrões de comportamento, a visão do mundo que se nos apresenta demonstra-nos que as nossas visões anteriores estavam equivocadas. Solve é válido para o confronto interno, mas também para os nossos preconceitos, a nossa ignorância, o senso-comum, a superficialidade, opiniões que tínhamos. É um processo que destroça o que fomos. É a destruição do homem/mulher anterior. Prepara para o renascimento. E aqui fica mais uma achega para o entendimento do que poderá significar o conceito de morte e renascimento iniciático.
Após o solve, o discípulo passa a outra fase onde deve haver alteração de algum parâmetro no universo comportamental do discípulo. Corresponde a um ganho de informação que permite a construção de uma nova organização. O discípulo reconstrói-se. Há um salto ontológico.
Seguidamente, através da acção do fogo, despertado por abhyása, necessário é que a alteração se amplifique para dar origem a uma nova forma de estrutura. É o coagula – “juntar”, “unir”. É a nossa capacidade de reunir dos destroços dos nossos conhecimentos obsoletos, pequenos vestígios de sabedoria. E passamos a construir tudo de novo, partindo do zero e da experiência e da orientação do Mestre, dado que o Yôga é iniciático. Mas nesta fase há uma consciência superior.
Solve e coagula – dissolver, destruir e unir, construir. A destruição e a criação da dança de Shiva.

Incenso – A obra menor
Em tempos remotos, vários povos, após a descoberta do fogo, passaram a queimar ervas, madeiras, sementes e descobriram que muitas destas matérias tinham determinados efeitos. Mais tarde, passaram também a queimar resinas, com algumas ervas, com algumas folhas, com alguns minerais. Primeiro como uma mera mistura de ervas. Mais tarde, produzindo também, com a mistura, uma transmutação alquímica. E sem esta, ainda que a fórmula seja a mesma, não haverá nada mais do que uma mistura de ervas.
Observaram, os mestres primevos, que as composições usadas produziam padrões energético distintos. E passaram a utilizar cada uma das fórmulas para o feito que pretendiam.
Entre os povos que mais cedo desenvolveram a arte do incenso, temos os egípcios e os drávida. Assim como os sumérios, os babilónicos e outros. Podem encontrar-se muitas referências escritas em relação a muitas civilizações da alta antiguidade.

A acção dos objectos
Todos os objectos podem servir de elevação da nossa consciência. Seja o tear, usado pelas mulheres, onde os segredos eram bordados na trama do tecido, onde eram transmitidas artes ocultas, seja no bastão com que um iniciado interage com os planos subtis e invisíveis, seja a vassoura com que o discípulo zen varre meditativamente o jardim, seja a espada samurai, seja a lança cravada em Cristo, seja o japamalá do yôgi, tudo pode preencher a função de alargamento da consciência desde que se conheça a maneira correcta (tantra) de se usar.
As pulseiras, os colares, os japamalá, um amuleto âmbar são condensadores de energia. Auto-carregam-se com energia em excesso daqueles que os portam e ao descarregarem-se fazem escoar esse excesso. Por isso, não devem ser usados em permanência. Para lhes dar tempo a descarregarem.
O âmbar simboliza o fio que liga a consciência individual à consciência cósmica, mas também o fio que impede que o viandante se perca no caminho do labirinto. Cumpre as funções que vos vou referindo do fio de ouro de Ariadne. Com uma subtil diferença – o fio de âmbar quebra-se.
O âmbar simboliza o sol. Diz a lenda que o âmbar são as lágrimas de Apolo, o Deus-Sol. (…) Quando foi expulso do Olimpo, Apolo chorava de âmbar , simbolizando que, não obstante a expulsão, ele ainda estava subtilmente ligado ao reino dos deuses, ligação expressa em lágrimas de tão subtil substância como o âmbar.
Entre os celtas, o mestre e os seus discípulos são muitas vezes representados mostrando um homem a puxar um grupo de homens que estão presos pelas orelhas, cada um deles preso com uma corrente de âmbar. Ora, esta substância é muito fácil de quebrar. Tal pretende mostrar que os discípulos, embora a ele presos, embora aos seus ensinamentos e orientação presos, e nesta a deverem-lhe obediência total, seguem-no por vontade própria. Seguem-no porque preferem fazê-lo, como seu guia, em vez de quebrarem a corrente e seguirem outro caminho. Quando o discípulo se afasta do Mestre verifica-se que este fica incapaz de criar, de inovar.

Finalizo com a leitura de um texto do nosso Mestre, João Camacho:

"Mas também honro as jornadas, da minha vida, dos ciclos de crescimento e de recuo, de frutificação, de colheita, de paragens e de recomeços. A minha vida como a de todos, mesmo que disso não tenham consciência, é uma sucessão de ciclos. Que se vão desenvolvendo desde o nascimento até à morte, desta, de novo até que a morte sobrevenha.
Mas estes ciclos, de mudança e renovação, não ocorrem só na minha vida, mas também na estirpe de onde provenho, na herança da Nossa Cultura, com os quais a minha vida se conecta, dos meus antepassados até hoje. Dos meus mestres, até vós. Toda a minha herança, e os ciclos pelos quais passaram fazem parte de mim. É a antiga sabedoria da Renovação, Destruição, Conservação, contida e expressa nas lendas e ensinamentos de Shiva."
João, Camacho In Celebro os ciclos
Duarte da Silva, Anabela; Os passos da transmutação: do solve ao coagula, p. 2-5