O Panda do Kung Fu e a arte do Yôga

04-01-2017 17:06

 

Mais um Yôgacine, um momento de fusão de convívio, cultura e erudição, coroada de pipocas e outros acepipes, desta vez em pleno final de ano com o Ashram Pashupati preenchido pelo calor humano e pelas gargalhas dos mais pequenos. Foi muito divertido, educativo, as crianças gostaram do filme e, com a sensorialidade distinta que os caracteriza, receberam a mensagem que continha, uns com mais interesse que outros, mas a diferença também faz parte.

E que óptima forma de terminar o ano!!! Com a devida introdução feita pelo nosso querido Mestre João Camacho que sinalizou pontos chave, o filme exibido, O Panda do Kung Fu, foi surpreendente pela riqueza da história quanto ao paralelismo com a prática de Yôga. A película relata a história de um panda que sonha em ser um grande Mestre Kung Fu, e conhecer os cinco Mestres (Macaco, Louva-A-Deus, Víbora, Grou e Tigresa) do Palácio de Jade, que foram treinados pelo melhor Mestre de Kung Fu de toda a China, o panda-vermelho Shifu. Po sabe tudo sobre o assunto e embora desajeitado gosta de inventar o seu próprio estilo de Kung Fu mas age de modo pouco sério pois o seu destino parece já traçado como vendedor de sopa de massa, tal como o seu pai – um ganso, e é expectável que o panda siga o mesmo rumo, embora o seu desejo seja diferente.

Só quando um ex discípulo de Shifu, Tai Lung, cujas extraordinárias habilidades no Kung Fu decorrentes do melhor treino alguma vez obtido mas de ego deseducado, pouco humilde e ofuscado pelo poder obtido através da arte – mas sem domínio da mente nem purificação das emoções, se liberta do cativeiro e retorna á aldeia para se poder vingar, é que Po tem a sua oportunidade de se juntar aos 5 Mestres.

No Palácio de Jade, lá no alto da montanha – que provação é para o pouco atlético mas persistente panda subir a escadaria - Oogway, uma velha e sábia tartaruga, Mestre de Shifu procede à escolha daquele que poderá ser o único digno de obter o poder ilimitado e se tornar o tão poderoso Dragão Guerreiro. O escolhido receberia o sagrado Pergaminho do Dragão, cuja mensagem era secreta, e teria a dura missão de salvar o vale das mãos de Tai Lung.

Num acaso improvável ou num momento iluminado Mestre OogWay escolhe o panda. Este fica incrédulo mas mantem-se no palácio sem desistir e acatando com santôsha os treinos árduos; Shifu não entende e discorda da escolha e não facilita a vida do panda, procurando fazer com que Po trapalhão, gordo e pouco civilizado desista de ser um Mestre Kung Fu e até os companheiros troçam dele e da escolha do Mestre Oogway. Como poderia um simples panda derrotar o terrível Tai Lung? Como percorrer um caminho mais espinhoso que uma silva e aceita-lo como nosso propósito? Como ver além do óbvio?

O panda não sabia como mas desejava-o muito, e tal como refere Pátañjali – I-21 ele está próximo para os que o anseiam com intensidade, e também não possuía ainda conhecimento de si mesmo para percorrer o caminho (marga) e ultrapassar os obstáculos. Contudo, após o desaparecimento do Mestre OogWay [abro aqui um parêntesis pois esta foi para mim a cena mais marcante do filme, poética até: a velha tartaruga, que quase parecia intemporal, detentora do conhecimento do passado, presente e futuro, anuncia que está na hora de partir, como se ele próprio tivesse a perfeição (siddhis) de escolher o momento da sua “morte” e dissolve-se no éter envolto por pétalas do pessegueiro em flor, natureza que se despe para honrar o sábio Mestre. Belo.] é Shifu , agora sem o seu Mestre para o guiar, aceitando enfim a sua decisão e obedecendo à sua missão de treinar o Guerreiro Dragão, quem tem o discernimento para ver no panda todo o seu potencial e valor pois só quando está a comer ou a pensar em comer é que o Po revela a sua natureza, e com isso, as suas capacidades latentes para o Kung Fu. Tal como um diamante em bruto, expondo-se às condições certas manifesta toda a sua beleza, força e brilho. Então Mestre e discípulo reconhecem-se e, agora com o método adequado para Po – bolinhos, inicia-se a preparação de Po para o combate com Tai Lung. Durante este período, o panda trabalha muito fisicamente, tal como no Yôga também nós yôgins trabalhamos o corpo, a energia e a nossa mente na prática diária, mas mais que isso o panda teve de trabalhar uma certa atitude mental, não só no sentido de superar o seu Mestre na realização das técnicas mas auto superando-se, percebendo por fim que o bolinho era dispensável. Esta ideia é reforçada também ao longo do filme pelas cenas do ingrediente secreto da sopa de massa e pela mensagem do Pergaminho do Dragão, que não existiam, eram ilusórias, falsas crenças, realçando que o essencial ou o que precisamos geralmente está em nós. Tem ser trabalhado, desenvolvido, ou polido tal como no diamante. No Yôga essas instabilidades são controladas através de abhyása (prática diligente) e de vairágya (desprendimento) como ensina Pátañjali I-12.

Com o filme ainda a meio, e já tanto se disse. E ainda há muito por analisar, tamanha é a analogia com o Yôga, próprio das artes marciais orientais, que questiono se o artístico estará mesmo a um passo do intuicional?? É que parece ter acertado em cheio!!

E isto num filme para crianças….Fica o desejo de o rever e aguardo ansiosamente o próximo Yôgacine que acontecerá em 2017. Até lá, Felicidades um Próspero Ano Novo com saúde, amor e muito Yôga.

SwáSthya, Ana Marisa Rebotim