EVENTO: YÔGA, JÛDÔ E PADDLE

27-09-2017 18:18


Foi no cenário paradisíaco da lagoa de Albufeira, Sesimbra, em fim de Verão que começámos a bela manhã de sábado de 16 de Setembro. Uma manhã intensa na companhia de uma egrégora maravilhosa. Iniciámos com uma prática de SwáSthya Yôga, ministrada pelo nosso muito querido Mestre João Camacho, na areia, com a brisa do mar a fazer-se sentir na nossa pele. A sensação de satisfação, força, bem-estar e alegria era visível em todos os participantes. E se o Mestre já nos habituou ao elevado nível das suas aulas de Yôga, neste sábado tivemos ainda a oportunidade de aprender um pouco de Jûdô, presenteando-nos com uma iniciação ao Jû-no-kata. Um conjunto de técnicas em que o ataque do adversário é usado para a nossa própria defesa, estas técnicas podem ser praticadas por qualquer pessoa, em qualquer lugar o que permite que todos possam aprender e compreender a lógica e razão do Jûdô. Uma excelente escolha da professora Paula Trigo de Sousa, responsável pela organização do evento, podemos perceber que tanto o Yôga como as artes marciais partilham de princípios semelhantes, entre eles, a concentração essencial à meditação e que no caso das artes marciais é também indispensável, pois qualquer distração pode ser fatal. Como sabemos, Shiva, o criador do Yôga de entre tantos nomes é também Sômaskánda, o Deus da Guerra. A dança de Shiva, na sua mais conhecida imagem: Shiva Natarája, é ela própria uma arte marcial secreta - Tándava.
“O Tándava, a dança da delimitação do espaço vital, ainda hoje é utilizado no Yôga. É parecido com um kata das artes marciais, dos estilos ditos internos [xi]. Esta prática que, quando executada por um Yôgi, recebe o nome de Shiva Natarája Nyása [xii] "constitui uma arte marcial secreta" [xiii] e muito antiga, o que faz situar o Yôga na génese das artes marciais indianas e chinesas e até, de modo indirecto, as japonesas. No Yôga, esta execução, permite ao sádhaka [xiv] melhorar a sua linguagem gestual, promovendo a identificação com o próprio criador do Yôga, Shiva, assim facilitando a sintonia relativa à origem primeira, consequentemente, à autenticidade e legitimidade do ensinamento [xv] . Projecta o sádhaka para a egrégora do Yôga.” Camacho, João; Artes marciais - as origens, 2004. https://www.cao.nossacultura.org/surya/jc_22_1.htm
Posto isto, se à partida podíamos não compreender o porquê desta combinação, rapidamente percebemos que faz todo o sentido, e quem teve possibilidade de participar sentiu, com toda a certeza, como uma e outra prática se complementam e enriquecem mutuamente.
SwáSthya!
Sádhika Rita Fernandes
[xi] As artes marciais do extremo oriente, nos seus aspectos esotéricos, pretendem desenvolver, trabalhar, dominar a bioenergia, chamem-lhe ki, chi, ou prána. Ora o que distingue um estilo interno do externo é que este inicia o seu trabalho de fora para dentro, procurando eficácia marcial através das capacidades físicas. O estilo interno procura desenvolver primeiro a bioenergia, e a sua eficácia em combate resulta da aplicação dessa energia. Dizê-lo assim é redutor e simplista, mas não é finalidade do nosso trabalho estabelecer esta distinção. Deverá ter-se presente, na análise que se faça do que é ou não um estilo interno os seguintes dados:
1 - Sabe-se que quase todos os grandes mestres tiveram discípulos internos (Kage Shihan - mestre da sombra, geralmente estes foram os uchideshi do Mestre) e externos, a quem ensinaram partes distintas da sua arte, o que dava por vezes origem a estilos distintos.
2 - Sabe-se que, quase sempre, os aspectos externos eram do conhecimento quase todos os discípulos, ensino exotérico. Os aspectos internos só eram ensinados em segredo e apenas aos discípulos que o mestre escolhia, ensino esotérico.
3 - Sabe-se também que os estilos externos fazem habitualmente um trabalho baseado sobretudo na força física, no bloqueio, na resistência, na contracção muscular. Os estilos internos apostam na subtileza, sem haver por isso diminuição da eficácia, antes pelo contrário, na esquiva, na não resistência, na descontracção.
4 - Se aqueles estilos vêem o corpo humano como um sólido e por isso usam predominantemente o punho fechado para mais estragos lhe causarem, estes com uma apreciação mais subtil e profunda apercebem-se que o corpo é composto preponderantemente de água, numa percentagem elevadíssima, sendo assim muito mais útil utilizar as mãos abertas, pois dar um soco na água pouca eficácia terá.
[xii] "Esta é uma identificação com Shiva no seu aspecto de Natarája, aquele que dança dentro de um círculo de fogo, marcando o ritmo do Universo com seu tambor dhamaaru, e pisoteando o demónio da ignorância, Avidyá (o qual também é conhecido por outros nomes).", De Rose, Faça Yôga Antes Que Você Precise (Swásthya Yôga Shástra), pg. 80.
[xiii] Straube, Curso Teórico de Svásthya Yôga, pg. 76.
[xiv] Praticante.
[xv] DeRose, id., pg. 90