Círculo de leitura

22-09-2017 18:19

Texto para a reunião de 22 de Setembro de 2017:
SIMPLICIDADE

Gostaria de investigar o que é a simplicidade e, talvez, a partir daí chegaremos a descobrir o que é a sensibilidade. Parecemos pensar que a simplicidade é apenas uma expressão exterior, uma renuncia: ter poucas posses, usar uma tanga, não ter morada, vestir poucas roupas, ter pouco dinheiro no banco, etc. Mas isso não é certamente simplicidade: é apenas exibição. Parece-me que a simplicidade é essencial; mas a simplicidade só pode nascer quando começamos a compreender a importância do autoconhecimento. Simplicidade não é ajustamento a um padrão. Ser simples exige muita inteligência e não conformar-se meramente a um padrão particular, por muito digno que nos pareça exteriormente. Infelizmente a maioria de nós começa a ser simples nas coisas exteriores. É comparativamente fácil ter poucas coisas, e ficar satisfeito com elas; contentar-se com pouco e talvez partilhar com outros. Mas uma mera expressão de simplicidade nas coisas, nas posses, certamente não implica simplicidade interior. Porque no mundo actual, cada vez mais coisas nos estão a ser impostas, exteriormente. A vida está a tornar-se cada vez mais complexa. Para fugirmos a isso, tentamos renunciar ou não estar presos a elas- desde carros, casas, organizações, cinemas e numeras circunstâncias que temos que aceitar exteriormente. Pensamos que eremos simples pela renuncia. Já houve muitos santos, inúmeros instrutores que renunciaram ao mundo; e parece-me que tal renuncia da parte de alguns de nós não resolve o problema. A simplicidade fundamental, real, só pode surgir interiormente; a partir daí há uma expressão exterior. Então, como ser simples é o problema; porque essa simplicidade torna a pessoa cada vez mais sensível, um coração sensível, é essencial, porque então ela é capaz de percepção rápida, de rápida receptividade.
Só se pode ser interiormente simples, certamente, quando se compreendem os inúmeros impedimentos, apegos, medos, nos quais se está aprisionado. Mas a maior parte de nós gosta de estar preso - a pessoas, a posses, a ideias. Gostamos de ser prisioneiros. Interiormente estamos prisioneiros, embora exteriormente pareçamos ser muito simples. Interiormente somos prisioneiros dos nossos desejos, das nossas necessidades, dos nossos ideais, de inúmeras motivações. A simplicidade não pode ser encontrada, a menos que se esteja interiormente livre. Ela tem, por isso, de começar de dentro e não exteriormente.
Há extraordinária liberdade quando se compreende todo o processo da crença, pr que é que a mente está apegada à crença. Quando estamos livres de crenças, há simplicidade. Mas essa simplicidade requer inteligência, e para sermos inteligentes temos de ter o percebimento dos nossos próprios impedimentos. Para nos darmos conta deles, temos de estar constantemente vigilantes, sem nos rendermos a rotina alguma, a algum padrão de pensamento ou acção. Afinal, o que somos interiormente afecta de facto o exterior. A sociedade, ou qualquer forma de acção, é a projecção de nós mesmos, e sem nos modificarmos interiormente, a mera legislação tem muito pouco significado exteriormente; pode produzir certas reformas, certos ajustamentos, mas o que somos interiormente supera sempre o exterior. Se formos interiormente gananciosos, cheios de ambição, se formos influenciados por certos ideais, essa complexidade interior acaba eventualmente por subverter a sociedade exterior, por muito cuidadosa que ela tenha sido planeada.
Assim, temos de começar dentro de nós, mas não de maneira exclusiva, rejeitando o exterior. Atingimos seguramente o interior, pela compreensão do exterior, percebendo porque o conflito, a luta, o sofrimento existem exteriormente. Investigando isso cada vez mais profundamente, chegamos naturalmente aos estados psicológicos que produzem os conflitos e os sofrimentos exteriores. A expressão exterior é apenas a indicação do nosso estado interior. Mas para compreendermos o estado interior temos de o abordar através do exterior. Quase todos nós fazemos isso. Na compreensão do interior – não de maneira exclusiva, não rejeitando o exterior, mas compreendendo-o, e desse modo atingindo o interior – vemos que quanto mais avançarmos na investigação das complexidades do nosso ser, mais nos tornamos sensíveis e livres. É esta simplicidade interior que é essencial, porque esta simplicidade cria sensibilidade. A mente que não é sensível, que não está desperta, vigilante, é incapaz de qualquer receptividade e acção creativa. O conformismo, como meio de nos tornarmos simples, torna de facto a mente o coração embotados, insensíveis. Qualquer forma de compulsão autoritária, imposta pelos governos, por nós mesmos, pelo ideal de realização pessoal, etc. – qualquer forma de conformismo só leva à insensibilidade, por não sermos simples interiormente. Exteriormente podemos ser conformistas e aparentar simplicidade, como tantas pessoas religiosas fazem. Praticam várias disciplinas, ingressam em organizações, meditam de várias maneiras, etc. – todas dando uma aparência de simplicidade, mas tal conformismo não leva à simplicidade. Pelo contrário, quanto mais se reprime, quanto mais se substitui, quanto mais se sublima, tanto menos simplicidade se existe, mas quanto mais se compreende o processo de sublimação, de repressão, de substituição, tanto maior é a possibilidade de ser simples.
Os nossos problemas – sociais, ambientais, políticos, religiosos – são tão complexos que só somos capazes de os resolver sendo simples, e não tornando-nos extraordinariamente eruditos e intelectualmente hábeis. A pessoa simples vê muito mais directamente, tem uma experiência mais directa, do que a pessoa complicada. As nosas mentes estão tão cheias de enormes conhecimentos de factos e do que outros têm dito, que nos tornámos incapazes de ser simples e de termos experiência directa. Estes problemas, precisam ser abordados de maneira nova; e só podem ser abordados assim quando somos de facto interiormente simples. Essa simplicidade só vir do autoconhecimento, pela compreensão de sós mesmos, pela compreensão no nosso pensar e sentir; dos movimentos dos nossos pensamentos, das nossas reacções, de como o medo nos leva a ajustarmo-nos à opinião pública, ao que outros dizem, ao que Buda, Cristo, os grandes santos terão dito – tudo isso mostra a nossa tendência natural para nos adaptarmos, para estarmos protegidos e em segurança. Quando uma pessoa procura segurança, está obviamente num estado de medo, e por isso não há simplicidade.
Se não somos simples, não podemos ser sensíveis – às árvores, aos pássaros, às montanhas, ao vento, a todas as coisas que acontecem à nossa volta, no mundo; se não somos simples, não podemos ser sensíveis às mensagens interiores das coisas. Quase todos vivemos muito superficialmente, no nível exterior da nossa consciência; aí tentamos ser sensatos ou inteligentes, o que é sinónimo de ser “religioso”, aí tentamos tornar as nossas mentes simples, pela compulsão da disciplina. Mas isso não é simplicidade. Quando obrigamos a mente superficial a ser simples, essa compulsão só endurece a mente, em vez de a tornar flexível, clara, ágil. Ser simples no processo total da nossa consciência é muito difícil; porque não deve haver nenhuma reserva interior, tem de haver um interesse profundo para descobrir, para investigar o processo do nosso ser, o que significa estar desperto para cada mensagem, para cada aviso; darmo-nos conta dos nossos medos, das nossas esperanças, e investigar, ficando cada vez mais libertos deles. Só então, quando a mente e o coração são realmente simples, não envolvidos por uma crosta, seremos capazes de resolver os muitos problemas com que somos confrontados.
O conhecimento acumulado não vai resolver os nossos problemas. Podemos saber, por exemplo que a reincarnação existe, que há uma continuidade depois da morte. Podemos saber, não digo que sabemos; ou podemos estar convencidos disso. Mas isso não resolve o problema. A morte não pode ser adiada por uma teoria que temos, pela informação ou pela convicção. A morte é muito mais misteriosa, muito mais profunda, muito mais criadora do que isso.
Temos de ter a capacidade para investigar todas estas coisas de maneira nova; porque só pwla experiência directa os nossos problemas serão resolvidos, e para ter experiência directa tem de haver simplicidade, o que quer dizer que tem de haver sensibilidade. A mente fica sobrecarregada como o peso do conhecimento. Fica embotada pela influência do passado e do futuro. Só a mente que é capaz de se ajustar ao presente, constantemente, de momento a momento, é capaz de enfrentar as poderosas influências e pressões que o nosso ambiente a cada instante nos impõe.

Texto retirado do livro O Sentido da Liberdade (p.82-85) de Krishnamurti