Círculo de leitura de Março

23-03-2018 20:15

A MENTE É UM MECANISMO CUJO COMBUSTÍVEL É A DISPERSÃO
O alimento da mente é a variedade. Ela pede por diversão, distração, dispersão, digressão. Por isso, em propaganda, a proposta de novidade, vende mais. Por isso, também, quando estamos estudando ou trabalhando há muito tempo, nossa mente pede uma pausa na qual possa distrair-se com outra coisa. E se lhe concedermos esse intervalo, ela funcionará muito melhor ao retornar às funções das quais anteriormente estava saturada. A técnica da meditação consiste em manter a mente concentrada num só objeto, sem lhe proporcionar variedade, novidade, diversão. Com isso, o combustível vai-se escasseando e, num dado momento, a mente para. Era o que queríamos: chitta vritti nirôdhah. Não dispondo mais, por alguns instantes, da ferramenta mental para veicular a consciência, esta passa a utilizar outro canal de manifestação, que é o intuicional, mais sutil.

DISPERSÕES
Primeira dispersão: atividade mental.
Não pense, porém, que para conseguir meditar basta sentar-se e fechar os olhos. Isso não é meditar. É sentar o corpo e fechar os olhos. Portanto, são coisas que você faz com o lado de fora, com a sua ferramenta corporal. Pode ser um início, mas se ficar nisso você não meditará nunca. O processo exige técnica e a técnica demanda treinamento e tempo. Se for uma pessoa geneticamente predisposta, conseguirá meditar em alguns meses de prática disciplinada e assídua. Os simples mortais precisarão de anos. Isso de vender uma fórmula mágica e dizer que você já estará meditando na primeira tentativa, é gato por lebre. Não caia nessa.
Ao longo da caminhada, ocorrem muitas dispersões. A primeira é a atividade mental. Essa dispersão ocorre com todos os praticantes, pois trata-se da tendência natural da nossa mente. Assim que você começa a se concentrar, a mente procura dispersar. É preciso trazê-la de volta. Isso ocorre até com os praticantes mais antigos. A diferença está na quantidade de vezes que a mente tenta digressionar e na facilidade com que o yôgin consegue trazê-la de volta a concentrar-se. A mente é como uma criança. Quando você quer que uma criança que quieta, não adianta gritar com ela ou apelar para a força. O pequeno só vai fazer mais barulho. O que você deve é negociar, prometer que, se o menino ficar quieto por cinco minutos, depois você lhe dará um pouco de diversão. Nossa mente é igual. Diga-lhe que se ficar quieta por cinco minutos, você lhe concederá a dispersão que ela pede, seja isso ler um livro, telefonar para alguém, sair de casa, enfim, qualquer coisa que caracterize distração. Uma vez prometido, cumpra. Vai ver que a mente se comportará exatamente como uma criança e se aquietará sob a expectativa de recompensa. Repetindo esse processo, notará que, a cada dia, entre uma dispersão e outra, os intervalos vão se alargando e que, a cada vez, vai-se tornando mais fácil trazer a mente de volta a aquietar-se.

Segunda dispersão: auto-hipnose.
Se a primeira dispersão é inofensiva, esta segunda é perniciosa. A mecânica da meditação parte da saturação da mente pela repetição do mesmo estímulo. A hipnose também parte desse princípio. Só que as semelhanças terminam aí: meditação é uma coisa e hipnose é outra. A
grande diferença entre os dois estados é que na meditação a consciência aumenta e na hipnose ela se reduz. Em meditação você não fica vulnerável à sugestibilidade como ocorre na hipnose.
Nada contra a hipnose, que constitui uma ferramenta preciosa nas mãos de pessoas habilitadas. No entanto, entrar em auto-hipnose sem saber que está nesse estado, não é desejável. Em algumas linhas de Yôga que não são tão críticas quanto a nossa, é comum que os praticantes caiam em auto-hipnose e se iludam, pensando que entraram em meditação, mas estavam num simples transe. Quando isso ocorre é facilmente detectável, pois o praticante começa a manifestar uma síndrome de superioridade em relação aos demais. Ele acha que está muito evoluído “espiritualmente”, mais do que todos os colegas, mais até do que o seu instrutor. Começa a achar que sabe mais do que o Mestre e a fazer declarações ou práticas que contradizem os ensinamentos do Preceptor. Em seu delírio, considera todos inferiores a ele. Não consegue mais aprender, só admite ensinar. Passa a faltar às aulas do Mestre com desculpas esfarrapadas. Mesmo que não o declare, em seu íntimo ele está convencido de que atingiu um estado superior de consciência, a meditação e até o samádhi. Não raro, ele se considera a própria reencarnação de Buddha e de Cristo.

NÃO SE DEIXE MANIPULAR
Muito pior do que você se induzir a si mesmo a um transe de autohipnose seria se ocorresse hipnose induzida por terceiros sem o seu conhecimento nem consentimento. Imagine esta situação: um grupo de pessoas de boa-fé numa sala, conduzidas por um líder espiritual carismático. Ele induz a uma suposta meditação, mas na verdade está utilizando recursos muito simples de hipnose de palco. Utiliza palavras bonitas, construindo frases com as quais as crenças das pessoas já concordam a priori. Deus, paz, tolerância, amor, perdão. Usa termos bíblicos. Utiliza sentenças que já constituem jargões espirituais. Pronto. A partir de um determinado momento, um percentual considerável da assistência estará disposta a doar tudo o que possui a essa entidade religiosa ou espiritualista, cujas sessões são gratuitas. Você nunca se perguntou como é que sociedades, associações ou cursos gratuitos de Yôga, de meditação ou de mantras conseguem manter sedes tão grandes e dispendiosas?
Nossos cursos são pagos. Nosso trabalho é cristalino. Se alguém deseja fazer um curso, é informado previamente de que esse curso tem uma remuneração claramente declarada. Apesar disso, sentimos na carne como é difícil manter uma sede com nosso trabalho honesto.
Como é que cursos gratuitos logram manter-se? O que é barato sai caro e o que é grátis sai caríssimo. Com o chamamento de que o interessado não teria que pagar nada, ele é atraído para a arapuca. “Não custa nada ir dar uma olhadinha, é grátis.” A partir de então, começa uma doutrinação muito bem arquitetada, da qual é quase impossível livrar-se.

“SERÁ QUE ESTOU MEDITANDO?”
É comum o estudante consultar o seu instrutor, expondo alguma experiência ou percepção e perguntar:
– Professor, será que isso é meditação?
Então, já vamos adiantar uma dica para que o praticante saiba se conseguiu meditar: se você precisa perguntar, não conseguiu. A regra é: se não tem certeza é porque não entrou em intuição linear; se tivesse entrado, saberia. No entanto, a recíproca não é verdadeira. Mesmo que tenha certeza, isso não garante que tenha deflagrado a superconsciência. Pode tratar-se de auto-hipnose.

COMO SABER SE ESTÁ EM MEDITAÇÃO
OU EM AUTO-HIPNOSE?
Havendo já eliminado a primeira questão e tendo a certeza de que está meditando, aplique agora o teste da distorção do tempo. Se o tempo for distorcido para menos, estará ocorrendo auto-hipnose. Se o tempo for distorcido para mais, provavelmente será mesmo meditação.
Como assim, tempo distorcido para mais ou para menos? Bem, o tempo está na quarta dimensão, mas essa dimensão é o emocional. Quanto tempo duram dez segundos? Seu impulso é olhar nos ponteiros do seu relógio analógico e responder, com pena de quem tiver perguntado, que dez segundos duram aquele tempo físico. Mas esse não é o tempo real. O tempo real (dentro do que se pode considerar real neste reino de ilusão) é aquele do qual nós temos consciência. Senão, vejamos:
a) Quanto tempo duram dez segundos se você só dispuser de dez segundos para rever a pessoa amada que estava um ano morando noutro continente? Só dez segundos e ela se vai outra vez. Um nada!
b) Quanto tempo duram dez segundos com a broca primitiva de um dentista aplicada sobre o nervo exposto do seu dente inflamado? Uma eternidade!
Conclusão: Se você medita dez minutos e isso se lhe afigura como três horas, sua consciência se expandiu. Você teve a consciência de três horas de percepções, elaborações, aprendizado e lucidez em apenas dez minutos. Em contrapartida, se você “meditar” durante horas e perder a noção
do tempo, se nessas horas só tiver percebido alguns minutos, sua consciência se contraiu, você não teve consciência de todo esse tempo: teve um branco, um lapso de consciência. Então, não meditou.Talvez tenha entrado em auto-hipnose. Não é isso o que queremos. Se for meditação legítima, sua ampliação da consciência é de tal forma que, num singelo piscar de olhos, você pode passar por uma vivência de muitos minutos e até horas de superconsciência. No início deste capítulo utilizamos a frase “chamamos a esse fenômeno intuição linear, quando conseguimos manter a intuição fluindo voluntariamente por um segundo inteiro – ou mais”. Um segundo de meditação proporciona um manancial de conhecimento, comparável a muitas bibliotecas. Não se trata de algumas horas de leitura, mas algumas horas de superconsciência.

DeRose, Tratado de Yôga (Yôga Shastra), Ed. Egrégora, 46ª edição, p.534-539, 2016