Círculo de leitura de Fevereiro

26-02-2018 16:34

Kundaliní: a Alavanca Biológica

A paz e a beatitude e também o aumento da capacidade criativa sentidos por alguns dos que praticam formas saudáveis de Yôga, devem sua origem à Kundaliní. O bem-estar físico e mental, e também a cura de várias indisposições às vezes efectuada, são, com frequência, devidos ao seu trabalho regenerador. Não há esfera da actividade e do pensamento humano na qual o impacto desse aparelhamento evolucionário não seja sentido. Desde que o mecanismo seja identificado, não haverá estudo científico tão extenso e mais carregado de importantes consequências para a humanidade do que esse. Ele é o manancial de tudo quanto é produtivo, nobre, heróico e sublime no homem. O corpo humano, com sua formação extremamente complexa e com as suas muitas funções e processos ainda não explorados, particularmente aqueles que ocorrem no cérebro e no sistema nervoso, ainda é um enigma para a ciência. Os métodos modernos de pesquisa, mais elaborados, estão trazendo à luz novos factos, novos dados, que antes não eram sequer suspeitados. Há muitos cientistas eminentes, engajados no estudo do Yôga, que ficam surpresos, e mesmo incrédulos, diante do domínio sobre o subconsciente e sobre os ritmos metabólicos do corpo evidenciados por alguns yôgis que alcançaram o controle sobre seu sistema nervoso automático. Essa possibilidade tem sido conhecida e posta em uso há milhares de anos na Índia, mas é uma experiência surpreendente para a ciência moderna. Da mesma maneira, o mecanismo psicossomático da Kundaliní, a alavanca biológica em todas as formas de Yôga, com suas implicações e possibilidades, foi conhecido e posto em uso na Índia, constantemente, por milhares de anos, desde o tempo da civilização do vale do Indo. Essa cultura, como o demonstraram recentes investigações, teve animado intercâmbio, no comércio e na cultura, com a América da época, e foi, possivelmente, o iniciador do cultivo do algodão na costa peruana, mais de dois mil anos antes do nascimento de Cristo, séculos antes desse cultivo ser empreendido no Egipto. Mencionei isso para mostrar que as referências à Kundaliní, na escritura maia dos Zunis, chamada Popol Vuh —e onde lhe dão o nome de "Hura-Kan", ou relâmpago, deve ter, também, origem hindu. No Egipto, a pequena cobra no toucado dos faraós tinha a mesma significação. Há indiscutíveis referências à Kundaliní na Bíblia. As circunstâncias relativas ao nascimento de Cristo têm alguns aspectos em comum com as que se relacionam com o nascimento de Krishna, o senhor dos yôgis, que, em sua infância, dança sobre a cabeça de uma cobra venenosa, Kali-Naga, isto é, a Serpente do Poder. Parece-me irónico que um culto tão antigo, tão amplamente difundido a ponto de se fazer global, e tão apoiado pela evidência de alguns dos mais elevados intelectos do mundo, inclusive Platão, Shankaracharya, Lao-Tsé e outros, devesse ser um livro fechado para a inteligência do nosso tempo. Tal como as demonstrações de controle do corpo, feitas pelos yogis, também foram um livro fechado para a ciência, a investigação sobre a Kundaliní tende a se fazer experiência ainda mais assombrosa para os cientistas que empreendam essa pesquisa nos excitantes dias que virão. Acaso os fenómenos físicos, exibidos sob condições de testes por indivíduos dotados de faculdades psi, não representam um enigma inexplicável para a ciência? E os próprios cientistas não estão divididos, no caso dos fenómenos psi, e mesmo do próprio fenómeno da vida? Assim, enquanto para Jacques Monod a existência do homem é o resultado de um acidente, para Sir Alister Hardy, outro eminente biólogo, a pesquisa física sugere que uma visão dualística do homem é muitíssimo possível, e que há bastante evidência empírica para apoiar a crença numa “chama divina" que impregna o universo e é acessível à mente indagadora do homem. Apesar das realizações de médiuns físicos, como Eusápia Paladino, Daniel Douglas Home, Rudi Schneider e de outras pessoas dotadas, como Edgar Cayce, e apesar do testemunho de eruditos e cientistas eminentes, como William James, Henri Bergson, C, D. Broad, William McDougall, Sir Oliver Lodge, e mesmo Carl Jung, a atitude dos académicos em relação à mente e à consciência dos fenómenos associados à religião e ao sobrenatural ainda é, no todo, indiferente. A pesquisa que agora está sendo feita na Rússia, e sobre Uri Geller e outros na América e na Europa, bem como sobre iogues na Índia e sobre curadores psíquicos em outras partes do mundo, estes últimos usando, segundo se diz, facas comuns nas mãos nuas para grandes operações, não tende a parecer mais decisiva no estabelecer o caso, pela simples razão de que as forças misteriosas que ficam por trás desses fenómenos notáveis não estão sujeitas ao controle humano e, portanto, continuarão à espera de uma identificação por qualquer dos meios adoptados pela ciência. Essa atitude indiferente para com os casos de fé, por parte dos cientistas em geral, e a divisão entre as fileiras dos eruditos quanto á validade dos fenómenos psíquicos, é, porém, carregada de graves consequências para as massas, que não têm tempo nem acuidade mental para alcançar o fundo do problema, ou separar o verdadeiro do falso. A pressão irresistível do processo da evolução cria uma sede ardente de autoconhecimento, prelúdio natural para a entrada em outra dimensão de consciência. Se, buscando orientação, os que são atormentados por essa sede encontram uma lacuna quando se voltam para os eruditos, ou, no máximo, deparam com uma dose indigerível de polémica, que outra alternativa lhes resta senão a de voltar-se para aqueles que dizem ter conhecimento desse assunto sublime, sejam eles quem forem? Sua revolta deriva de terem sido frustrados em seu desejo de conhecer a significação da vida. De que forma os modernos psicólogos avaliam essa revolta que ainda está ganhando impulso? Histeria, repressão, desejo de realização, impulsos inconscientes e incontroláveis, ou o quê? Em qual das suas categorias predilectas classificam eles essa quase universal onda de desilusão quanto aos valores e ordens estabelecidos, e a tormentosa fome de uma vida mais satisfatória, espiritualmente orientada? Será, inconscientemente, a ameaça à sua sobrevivência, feita pelos arsenais nucleares do mundo, que está na base do seu inexplicável comportamento mental?
Recentemente, em Srinagar, recebi a visita de um jovem inteligente, filho único de um abastado americano, e ele me disse que preferia a vida calma de meditação e autopesquisa ao luxo e à grande riqueza. Há milhões de homens e mulheres jovens pensando dessa mesma maneira. Não se está vendo nessa rebelião o mesmo que aconteceu na Índia, há milénios, quando Buda deixou seu reino por uma floresta? O impacto crescente das forças da evolução cria uma sensitividade que se recusa a permanecer subserviente a uma forma de vida mecânica. Querem saber como os sábios da antiga Índia enfrentaram praticamente a mesma situação mental, depois de algumas centenas de anos de influente vida civilizada? Dividiram o prazo da vida humana em quatro partes, reservando as duas últimas, que se iniciavam à beira dos cinquenta anos, para a indagação do eu. Durante o terceiro período, moravam numa floresta, mesmo acompanhados de suas esposas. Mantidos por seus filhos, dispensados dos demais deveres da vida, mergulhavam na meditação e em outros exercícios espirituais.

Krishna, Gopi; O despertar da Kundaliní, Editora Pensamento-Cultrix ltda, pdf 2014