ADVERTÊNCIA AOS BONS PRATICANTES E SEUS INSTRUTORES

07-12-2018 00:22

ADVERTÊNCIA AOS BONS PRATICANTES E SEUS INSTRUTORES

Shrí DeRose no Tratado de Yôga pp. 291 e 292, deixa uma seríssima advertência aos seus exímios praticantes. Reproduzimo-la aqui:
A excelência técnica pode desenvolver em alguns praticantes um distúrbio de hipertrofia do ego. Tal moléstia faz eclodir uma absurda arrogância que compromete o relacionamento com o seu Mestre e com os companheiros. Contudo, isso só ocorre se o estudante já for portador de uma falha psicológica nessa área e jamais nas pessoas emocionalmente equilibradas.
Pelo facto de perceber que executa melhor que a maioria dos seus colegas, o yôgin deixa-se embalar pela vaidade e num dado momento, pensa que é superior. Ele se esquece de que o Yôga não é ásana e de que a boa performance corporal constitui apenas uma das etapas mais rudimentares na senda.
Ásana, por ser orgânico, restringe-se a uma conquista muito limitada nesta grande jornada. Infinitamente mais difícil é cultivar a humildade e a lealdade na relação com o seu Mestre.
DeRose

DOS AGENTES DE ENSINO E DO ENSINAMENTO DO YÔGA

Vou deixar-vos, neste e em próximos comentários, algumas notas sobre este tema – as características de um Mestre de Yôga e da relação entre estes e os seus discípulos. Deixo-vos uma citação de Iyengar sobre este tema e, também, sobre a arte de ensinar Yôga.
É relativamente fácil ensinar um assunto académico, mas ensinar uma arte é mais difícil e ensinar Yôga é ainda mais difícil porque os professores de Yôga devem criticar a sua própria prática e corrigi-la. A arte do Yôga é inteiramente subjectiva e prática. Os professores de Yôga devem conhecer todos os mecanismos do corpo; assim como devem conhecer o comportamento das pessoas que venham a encontrar, saber como reagir e estar prontos a ajudar, proteger e defender os seus alunos.
As qualidades necessárias para ensinar são numerosas, mas quero enumerar-vos algumas de modo a que as entendam a todas, que as compreendam e que as trabalhem. Por conseguinte podereis descobrir muitas outras. Um agente de ensino deve ser claro, inteligente, confiante, estimulante, atento, prudente, construtivo, corajoso, compreensivo, criativo, inteiramente consagrado e dedicado ao estudo do que ensina, prevenindo, consciencioso, crítico, arregimentado, alegre, casto e calmo. Os agentes de ensino devem ser fortes e positivos na sua maneira de ensinar. Devem ser afirmativos para criarem confiança nos alunos e negativos no seu foro interior para poderem rectificar de forma crítica sobre as próprias práticas e atitudes. Os professores não devem jamais parar de aprender. Aprendem com os seus alunos e devem ter a humildade de lhes dizerem que não chegaram ao fim da aprendizagem da sua arte.
A relação entre o Mestre e o discípulo é comparável à que existe entre marido e esposa, entre pai e filho. É uma relação muito rica e muito complexa. Como na relação entre marido e mulher, que é uma relação de intimidade, os mestres devem fazer todos e os mais ardentes esforços para impedirem os discípulos de caírem e ajudá-los ao longo de toda a sua prática. (…)
Uma avenida dos sentidos une discípulo e Mestre implicando amor, admiração, dedicação e devoção.
Iyengar, L’ Arbre du Yôga, pp. 218 e 219
João Camacho, Discípulo de Shrí DeRose
Sou irmão de dragões e companheiro de corujas

O CAMINHO INICIÁTICO E A DEMOCRATICIDADE DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO

Julius Evola, no seu livro Le Yôga Tantrique, refere que a ciência e a técnica são democráticas. Têm uma estrutura intrínseca, de organização e de transmissão do conhecimento democrática. Qualquer um, medianamente inteligente, consegue ir à Universidade e fazer seus os conhecimentos actuais. Uma pistola produz o mesmo efeito nas mãos de um idiota, de um soldado, de um polícia ou de um chefe de estado. E a qualquer um deles é possível transportá-los de avião, no mesmo número de horas. Mas assim, já não é como o conhecimento iniciático. No âmbito da ciência estamos no plano ontológico do ser humano. E aí os princípios são os da igual dignidade. A transcendência da condição humana, objectivo das disciplinas de auto-superação, como a Nossa Cultura, conduzem o sádhaka a um estado existencial e ontológico superior, consequência da superioridade uma evolução que leva a que o yôgin seja um mutante, por comparação com o resto da humanidade. Ora, o calor, o despertamento da kundaliní, os siddhi que, com isso se manifestam, são pessoais, intransmissíveis e não democratizáveis. Esta profunda diferença, é a divisão fundamental entre a tradição e a modernidade. Pois a diferença real entre os seres é a base de um conhecimento e de um poder inalienáveis, não comunicáveis, logo exclusivos e esotéricos pela sua natureza e não por artificio, pois trata-se do culminar de um desenvolvimento excepcional, que não se pode partilhar com toda a sociedade.
Nesta sequência, René Guenón, o grande orientalista francês da primeira metade do século XX, estabeleceu, para classificar uma fraternidade, um círculo interno, como detentora de autênticos processos iniciáticos, três características que se devem observar:
• Necessidade de uma genuína qualificação interna dos seus membros
• Necessidade de uma transmissão do saber esotérico e de auto-aperfeiçoamento interior de cada um dos membros
• Necessidade de actualização activa subsequente, pelo esforço individual

Tais exigências devem-se ao facto de a iniciação não ser um mero ritual de passagem que celebra a aceitação numa fraternidade. A iniciação é muito mais do que isso. É e pretende ser, um processo transformativo, de mutação, de auto-superação, que começa com um influxo energético, polarizado, pelo Mestre, proveniente dos domínios transcendentes e exercendo os seus efeitos ao nível dos corpos subtis. Porém, aquele que se envolve no processo iniciatório, deve ultrapassar-se também em provas físicas (outra razão para a coreografia de ásana) e ser corajoso.
A iniciação foi sempre reservada a alguns e nunca aberta a toda a gente. O impulso iniciatório transmuta o ser humano, se este não o detiver. Uma tradição iniciática usa tudo como elemento de transformação: o corpo; os desejos; as pulsões; a imaginação; a clarividência; a emoção; a intuição. Pois o processo só pode iniciar-se e ter continuidade de fora dará dentro, do Mestre para o discípulo.

João Camacho
Sou irmão de dragões e companheiro de corujas