Acerca da Índia e da origem do Yôga

13-03-2016 19:07
Acerca da Índia e da origem do Yôga, e da civilização dravídica tem havido duas teses principais. Uma que tem tido maior apoio dos estudiosos e das autoridades, maior suporte documental e científico. Outra que se tem querido afirmar desde a década de 90 do sec. XX.
A primeira defende que havia no Vale do Indo uma avançada civilização que ali se desenvolveu. É designada como a civilização do Vale do Indo, ou a civilização dos Drávida, ou a civilização Harapiana, ou a civilização do Indo/Saraswatí ou, como recentemente a doutrina francesa passou a designá-la, a civilização Sumero-dravidiana. De acordo com esta tese, eram os drávida que habitavam o Vale do Indo e aí desenvolveram a sua civilização, cujas características não desenvolverei nestas pequenas notas que vos deixo. Em todo o caso, na Surya online, há um artigo publicado, do Instrutor Júlio Silva, onde tais características são enunciadas. Num período que terá começado a partir de 1 800 a. n. E. (antes da nossa Era), e que se terá intensificado a partir de 1 500 a. n. E., guerreiro bárbaros da etnia arya (arianos), através de sucessivas migrações invadiram o território drávida escravizando os de raça drávida e destruíram as suas cidades. O que os obrigou a migrar para Sul. Os arianos eram portadores de uma organização social patriarcal.
Outra tese, defendida, entre outros, por Feuerstein e por Pedro Kupfer, vem afirmando que tal tese está errada e que os arianos não chegaram lá em sucessivas vagas migratórias, que culminaram com a destruição da já enfraquecida civilização do Vale do Indo. E negam que tenha havido invasão. Pela razão de que os arianos já lá estariam habitariam desde pelo menos 6 000 a. n. E.
Edwin F. Bryant e Laurie L. Patton, foram os organizadores de uma obra colectiva onde se apontam os pontos fortes e as fraquezas de cada uma destas teses. Bryant é Professor Associado na Rutgers University, onde lecciona a cadeira Hinduísmo e foi Leitor de Hinduísmo na Universidade de Harvard durante 3 anos. Patton é Professor na Emory University, onde lecciona a cadeira de Antigas Religiões Indianas. A obra tem como título The Indo- Aryana Controversy. Evidence and inference in Indian history.
A segunda tese tem vindo a ganhar adeptos. Os seus seguidores apresentam sempre explicações para tentarem demonstrar que a invasão não existiu. Tenho acompanhado a polémica e tenho lido os argumentos e as provas que se têm reunido de um lado e de outro. E, até hoje, ainda não encontrei, da parte dos defensores da inexistência da invasão, resposta para uma objecção antiga, apontada por Henrich Zimmer.
O Doutor Zimmer era um ilustre Professor da Universidade da Colúmbia. O texto que seguidamente vos citarei resulta das conferências que deu nesta Universidade durante o inverno de 1 942. Tal curso está publicado sob a forma de um livro, traduzido para português, Mitos e Símbolos na Arte e civilização Indianas. Nesta obra lê-se, pp. 99 e 100:
«O lótus cósmico é chamado “A forma ou aspecto superior da Terra”, e também “A Deusa Humidade”, “A Deusa Terra”. É personificado como a Deusa Mãe, graças à qual o Absoluto inicia a criação.
A deusa não está presente na tradição mais antiga, clássica, dos Vedas. Como a própria planta do lótus, ela é um produto da vegetação própria da Índia, e, portanto, era estranha aos invasores vindos dos territórios nórdicos de onde eram originários. Entre os mil e sessenta e oito hinos de que se compõe o Rig Veda – o mais antigo monumento literário da tradição exclusivamente ariana, brahmânica – não existe nenhum que seja dedicado à Deusa do Lótus, ou que a mencione sequer. Ela também não surge entre as divindades do panteão védico.»
Recentemente, o Instrutor Júlio silva, nas suas investigações, para a preparação da sua tese para quando chegar o momento de se candidatar ao grau de Mestre, descobriu um estudo que segue em anexo, para V. conhecimento. Esse estudo demonstra, através da genética que a invasão ocorreu, de facto – Pré-Caucasoid and Caucasoid Genetic Features of the Indiana Population, Revealed by mtDNA Polymorphisms, Am. J. Hum. Genetic. 29:927-934, 1996.
Os defensores da inexistência da invasão ariana também têm tendência a fingir que este estudo não existe.
Parece não restarem dúvidas, no âmbito dos conhecimentos científicos que possuímos, que a invasão ariana aconteceu, há cerca de 3 600 anos.
Deixo-vos estas notas para V. reflexão.
 
João Camacho, Yôgachárya
Discípulo de Shri DeRose